Sentimentos sobre a casa da minha avó

 Era longe, numa cidadezinha bem pequena do interior de São Paulo, também era simples; tinha cara de casa de vó. Íamos só minha mãe e eu visitar a minha avó Maria, o meu pai pai dizia que passava muito mal com o calor do interior, por isso, escolhia ficar trabalhando. Eu ainda era muito pequena para entender que o calor era só uma desculpa mal inventada pelo meu pai, e que as conversas intermináveis entre a minha avó e a minha mãe tratavam justamente disso; das desculpas pouco convincentes dele.

 Eu não tinha tempo para me aborrecer com qualquer coisa enquanto estava lá; sempre tinha os meus pratos favoritos no almoço, a receita secreta do melhor pudim do mundo como sobremesa. o bolo de cenoura com cobertura de chocolate quente que roubava a cena do fim de tarde, brincar na rua e só voltar depois de assistir um belo por do sol e assistir TV até adormecer no sofá da sala faziam sempre os melhores dias das melhores férias da minha vida.

 Eu tinha acabado de completar doze anos quando minha mãe foi efetivada para o cargo que ela tanto sonhava. Os poucos dias de férias impediam que a minha mãe fosse comigo visitar a minha vó, sempre acontecia uma briga quando eu insistia em ir sozinha, e era nessa hora que o meu pai se manifestava dizendo que sozinha eu nunca iria a lugar nenhum. Eu ainda não sei dizer se as brigas entre os meus pais aumentavam a medida que eu ia crescendo ou se, depois de crescer um pouco, é que eu percebi que nem tudo eram férias e bolo de cenoura com cobertura de chocolate quente.

 Depois de ficar decidido entre os meus pais que eu iria morar com a  minha avó, eu chorei me vendo de novo aos oito anos de idade, voltando para a casa depois de passar as férias na casa tão querida da minha avó. Eu tinha a certeza de que nada estaria igual e que as férias nem eram tão boas quanto pareciam e que, na verdade, eu só era uma criança que não sabia ver a vida como ela realmente é. Hoje, aos dezoito anos, eu pude compreender melhor o que era bom e o que era ruim na minha época de criança. Percebi que morar com a minha avó foi realmente muito bom, assim como eram as férias na casa dela e que as brigas na casa dos meus pais era só uma fase ruim que, mais tarde, resultou em um inevitável divórcio.
Foto: unsplash.com

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